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O verdadeiro impacto dos gatos sobre o meio ambiente

O verdadeiro impacto dos gatos sobre o meio ambiente

O impacto da espécie Felis catus em ecossistemas naturais

Ao longo dos anos, o gato doméstico tornou-se uma das espécies preferidas do ser humano como animal de estimação. Suas personalidades amorosas e brincalhonas, porém reservadas e aparentemente desapegadas, encantam muitas das pessoas que escolhem ter um gatinho como pet. Soma-se a isso a aparente "independência" do gato, não tendo a demanda energética que um cão em geral exige, o que combina perfeitamente com a rotina corrida e atribulada da sociedade moderna.

A espécie Felis catus tem origens no Oriente Médio, contudo, atualmente, é encontrada em praticamente todos os continentes do planeta e muito bem adaptada em diversos ambientes.  Desta forma,  o gato doméstico é uma próspera espécie invasora, listada inclusive entre as 100 piores espécies não nativas invasoras do mundo, cuja introdução global deve-se a ação antropogênica.

No que se refere a posse destes animais, os gatos podem ser subdivididos nas seguintes categorias:

  • Domiciliados: animais que possuem responsável e domicílio fixo;

  • Peridomiciliados ou errantes: não possuem responsável nem domicílio fixo, mas ficam próximos dos centros urbanos, sendo alimentados pelas pessoas;

  • Ferais ou asselvajados: animais que não possuem responsável nem casa, nem moram em centros urbanos, vivendo sem interação com as pessoas.

As legislações e discussões que existem em torno do conceito de posse responsável desses animais orbitam em torno do conceito de bem-estar animal, especialmente na questão de animais que possuem acesso ao mundo exterior. Enquanto alguns argumentam que gatos de vida livre possuem maior oportunidade de fazer exercícios, de realizar comportamentos naturais - como caçar, arranhar e escalar - outros argumentam que gatos de vida livre estão mais propensos a doenças (tanto doenças espécie-específicas quanto zoonoses), a atropelamentos e agressões, predação e ingestão de toxinas. Além disso, indivíduos não castrados com acesso ao exterior contribuem com o aumento desenfreado da população de gatos ferais e peridomiciliados.  

Considerando, portanto, o bem-estar animal do gato doméstico e os riscos que o acesso ao exterior sem controle oferece, é necessário conscientizar e motivar na população a posse que motive a expressão de comportamentos naturais da espécie, contudo, isso pode ser oferecido propiciando ao gato um ambiente enriquecido de acesso controlado, seja através de telas ou coleiras. Contudo, ainda são necessários mais estudos para verificar o benefício total dessas estratégias. 

Do ponto de vista de impacto ambiental dessa espécie, os gatos são carnívoros restritos e, mesmo domesticado, possuem comportamento de caça e predação bem desenvolvidos. Portanto, nos ecossistemas, eles têm um impacto negativo muitas vezes imensurável, seja através da predação ou da competição com predadores nativos. 

Existem relatos em alguns locais do mundo de extinção em massa de algumas espécies, extermínio sistemático de espécies endêmicas de ilhas e tornaram-se, então, um grande problema para uma variedade de ecossistemas. Suas principais presas são pequenos mamíferos, répteis, aves e invertebrados.

É difícil uma análise sistemática do real impacto dessa espécie no ecossistema local, porém existem estimativas dos mais diversos locais do mundo, sugerindo que o número de animais mortos por gatos domésticos fica na ordem de 10⁶ a 10⁹. Em ambientes insulares seus impactos são ainda mais drásticos, especialmente com os animais categorizados como ferais ou asselvajados, seguidos pelos peridomiciliados e, finalmente, pelos domiciliados.

Aqui no Brasil, o efeito é sentido especialmente em Fernando de Noronha, cuja estimativa de população de gatos domésticos seja de mais de 1300 indivíduos, em uma das maiores populações insulares do mundo. Pesquisadores ligados à órgãos de conservação da fauna brasileira já expressaram sua preocupação quanto a esse cenário, pois os animais ferais, assim como observado em outros locais do mundo, tem um impacto significativo na população de mabuias, uma espécie de lagarto típico do local.

As aves, inclusive espécies ameaçadas de extinção, também estão em risco com a presença desse predador no arquipélago, especialmente as cocorutas, sebitos, atobá-de-pés-vermelhos, rabo-de-junco-de-bico-laranja e especialmente a noivinha, já que Fernando de Noronha é seu ambiente de reprodução.

Considerando, portanto, tanto o bem-estar animal individual do gato doméstico como seus impactos negativos no meio ambiente nos mais diversos locais do mundo, são necessárias além de políticas efetivas de controle populacional, mas a conscientização das pessoas do risco ambiental que essa espécie representa para a fauna local, estimulando a preservação através da posse responsável do gato.

Tornar acessível à população informações sobre enriquecimento ambiental específico para os gatinhos é fundamental para a manutenção do bem-estar tanto do indivíduo como do meio ambiente.

Referências consultadas:

[1] Site BBC Brasil. Acessado em 22 de outubro de 2020;

[2] Scott R. Loss, Tom Will, Peter P. Marra. "The impact of free-ranging domestic cats on wildlife of the United States", Nature Communications, 2013, 4, 1-8; 

[3] Sarah M.L. Tan , Anastasia C. Stellato, Lee Niel. "Uncontrolled Outdoor Access for Cats: An Assessment of Risks and Benefits", Animals, 2020, 10, 258.

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