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A importância do Enriquecimento Ambiental em projetos com soltura de animais

A importância do Enriquecimento Ambiental em projetos com soltura de animais

Há muitos animais que vivem sob cuidados humanos em empreendimentos de fauna, e arrisco dizer que a grande maioria não conseguiria sobreviver em ambiente natural se fossem soltos. Muitos dos indivíduos, seja de fauna exótica ou silvestre, foram resgatados de operações em combate ao tráfico ilegal de animais, vários chegam com lesões permanentes ou ainda filhotes. Muitos outros animais chegam a Centros de Triagem por decorrência da intensa redução de hábitat, vítima de atropelamento, da rede elétrica, das pipas etc. Muitos outros nascem em cativeiro, de pais que chegaram a essas instituições por alguns desses motivos relatados acima.

A situação é crítica. São milhares de animais, muitos de espécies ameaçadas de extinção, que não podem ser soltos sem projetos de conservação.

Soltar um animal que não está preparado para reconhecer perigo, fugir de um possível predador, buscar por fontes de água e alimento, explorar o ambiente em busca de áreas de abrigo e de outros indivíduos da mesma espécie é como condenar o animal a passar por momentos difíceis e decisivos de vida ou morte.

Existem projetos de conservação de fauna que são inspiradores. Nos anos 70 e 80, houveram iniciativas internacionais e nacionais de reintrodução do Mico-leão-dourado (Leontopthecus rosalia); Falcão-peregrino (Falco peregrinus), e Órix-da-Arábia (Oryx leucoryx). Esses projetos nos permitiram muito conhecimento sobre o assunto. Nos últimos anos, foram criados projetos de conservação com enfoque em outras espécies, como exemplo a Jacutinga (Aburria jacutinga), espécie ameaçada de extinção da Mata Atlântica.

Embora ainda sejam poucos projetos de conservação comparados a quantidade de espécies sob cuidados humanos, essas iniciativas são fundamentais para evitar a extinção de muitas espécies, para produzir conhecimento científico e sensibilizar comunidades sobre as questões ambientais.

Para que projetos de conservação sejam eficazes em seus objetivos de soltura, compreendemos que existem fatores interligados e que influenciam diretamente na sobrevivência:

  1. Habilidades específicas para sobrevivência adquiridas de experiências anteriores;
  2. Capacidade de aprender estratégias e adquirir habilidades comportamentais em resposta a um ambiente dinâmico e mutável.

Partindo disso, você deve estar se perguntando como ensinar um animal a sobreviver na natureza?

Existem pesquisadores que defendem que as habilidades necessárias e flexibilidade comportamental podem ser influenciadas pela qualidade do ambiente em que o animal vive antes de ser solto. Mesmo o ambiente sendo restrito e telado, ainda assim é possível estimular os animais a expressarem comportamentos naturais através de técnicas de Enriquecimento Ambiental.

Essas técnicas são utilizadas para oportunizar novas experiências e possibilitar estímulos próximos ao que o animal encontrará na natureza.

Por exemplo, no caso da Jacutinga, que é uma ave que passa boa parte do tempo no alto das árvores e palmeiras, será que ela realmente precisa ir até o chão da floresta para tomar água? Será que ela precisa ocorrer risco de ser predada ao saciar uma necessidade fisiológica?

Não! Através de estudos comportamentais, percebeu-se que na natureza as Jacutingas bebem a água que fica acumulada nas bromélias e nas estruturas das palmeiras.

Foto: Alecsandra Tassoni, Projeto Jacutinga - SAVE Brasil

Foi baseado nesse conhecimento que a equipe do Projeto Jacutinga, realizado pela SAVE Brasil, incluiu bromélias pelo recinto de adaptação pré-soltura. A melhor parte, foi descobrir que as aves, depois de soltas na natureza, conseguiam reconhecer fonte de água, assim como tinham aprendido no recinto de adaptação.

Aqui citei um exemplo que foi realizado com Jacutingas, mas o mesmo conhecimento pode ser replicado para muitas outras espécies.

É possível ensinar os animais que serão soltos a reconhecerem predadores e a buscarem por alimento através de técnicas de Enriquecimento Ambiental.

O importante é possibilitar estímulos coerentes com os que os animais encontrarão depois de soltos e planejar atividades com materiais naturais ou que mimetizam o natural para maior eficiência.

Por fim, técnicas de Enriquecimento Ambiental são fundamentais para os animais que vivem sob cuidados humanos e para aqueles que retornarão à natureza.

 

Referências

MARTINS, M.H.B. Dissertação de Mestrado. O papel do enriquecimento ambiental na preparação comportamental de Papagaio-do-peito-roxo (Amazona vinacea) (Aves, Psittacidae) para reintrodução no Parque Nacional das Araucárias – SC. 2020.

ROCHA-MENDES, F.; NAPOLI, R. P.; MIKICH, S. B. Manejo, reabilitação e soltura de mamíferos selvagens. Arq. Ciênc. Vet. Zool. Unipar, Umuarama, v. 9, n. 2, p. 105-109, 2006

SHEPHERDSON, D. J. Tracing the path of environmental enrichment in zoos pp 1 in: Shepherdson DJ, Mellen JD & Hutchins M (eds) Second nature: environmental enrichment for captive animals. Washington, DC: Smithsonian Institution Press. 1998.

SHEPHERDSON, D. J. Environmental enrichment: past, present and future. International Zoo Yearbook, v. 38, n. 1, p. 118-124, 2003.

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